Eu olho pras paisagens como eu olho pro rosto das pessoas que eu amo
Essay by Mayara Yamada
Chaque saison, Kaaitheater donne carte blanche : nous recherchons un texte, un essai ou toute autre contribution en lien avec le thème général de la saison, rédigé par l'un des artistes du programme. Pour janvier-juin 2026, Mayara Yamada a écrit Eu olho pras paisagens como eu olho pro rosto das pessoas que eu amo, dans lequel elle décrit une « pratique artistique trans-situ » et nous invite à laisser fondre notre cœur.
PT:
Eu olho pras paisagens como eu olho pro rosto das pessoas que eu amo
O sol está nascendo contornando uma montanha. Perto daqui tem tantas cachoeiras e rochas quanto pequenas criaturas, quanto criaturas invisíveis. Você pode ouvir a água e talvez algum sussurrar que vem com o vento. O sol tem uma luz quente, e o vento é um levemente frio. É uma sensação boa. O sol está tocando tudo que você pode ver e pouco a pouco novas silhuetas se desenham no horizonte. Enormes nuvens com mensagens escondidas. Um parquinho para crianças de todas as idades - um parquinho no céu. Levada por uma dessas nuvens, cercada pelas suas formas macias e o seu tom de rosa, de repente, você vê o sol de perto.
E de repente começa também a chover, assim não temos que escolher entre o sol e a chuva. Nós não sabemos como escolher um deles. Sol forte chuva forte. Lá embaixo o rio segue serpenteando, pintando a floresta com uma cor marrom-dourada, sendo uma cobra que não se camufla.
A paisagem me dá uma piscadela como quem diz, tu sabes né? Tu já sabia. Tu sempre soube. E isso é um segredo entre eu e ela, a estrada.
Eu choraria tanto vendo um campo de vagalumes no interior do estado do Rio divisa com Minas quanto vendo a aurora boreal
Mas na estrada no Pará
Eu sorrio
Hoje quem eu sou e a arte que produzo é determinado pelo fato de que estou em um movimento sanfonar com o lugar de onde vim, pêndulo certeiro: sempre volto. Eu nunca rompi com meu lugar de origem: uma cidade, metrópole, no coração da Amazônia. Belém do Pará. Que onda. Esse lugar tem sido pra mim uma espécie de fonte inesgotável de símbolos, histórias, códigos, cultura, sons, músicas, línguas. Desde que saí de lá, passei por algo que hoje vejo ser muito comum pra pessoas que migram: passei a ser muito de lá. Minha arte então segue o mesmo movimento, fala sobre esse lugar, desloca seus símbolos comigo pra onde quer que eu vá.
A isso eu chamei de uma prática artística trans-situ: ao contrário do in-situ, do hyper localizado, ela está interessada em transpor, transcrever e traduzir esses códigos para outros contextos.
Com que ética? Como fazer esse deslocamento sem me auto-exotizar? Sem mastigar minha cultura pra gringo ver? Como não me apropriar de outras vivências e sim traduzir de forma muito autêntica minhas próprias percepções de uma cultura da qual faço parte e sou estrangeira ao mesmo tempo? Essas são questões que permeiam minha forma de criar, que são parâmetros de exigência para que a ética e a estética do que produzo possam caminhar juntas.
Eu estou sempre me perguntando: eu faria isso no Brasil?
Eu voltaria pro meu país e perfumaria isso?
E voltar é tão difícil. E também é um alívio. Quando eu volto todo mundo está num ponto diferente, constantemente se transformando junto com o contexto em que vivem. Eu volto e eu sinto uma necessidade muito verdadeira de entender como a cena artística vem evoluindo, como meus amigos estão crescendo, como as pessoas que eu amo estão ficando mais velhas. Quando eu volto, eu preciso de tempo. Tempo pra processar a travessia entre contextos tão radicalmente diferentes - tu já imaginou o arco entre a Suíça e a Amazônia brasileira? Eu preciso de tempo pra entender, de novo, que quando eu volto eu não pertenço e eu pertenço tanto ao mesmo tempo.
Essa é a encruzilhada onde eu me encontro. Recentemente, eu entendi que o papel daqueles que não estão fincados nos seus lugares de origem é o papel de mensageiro. Nem melhor, nem pior: eu admiro muito as pessoas que fazem dos seus lugares uma base, que são referência, que são ramificação e sustento de suas culturas locais. Mas meu caminho foi diferente: o da mensageira.
E desde que eu entendi isso, eu fico me perguntando: o que eu vou levar pra lá dos contextos que eu vivo, das experiências que eu compartilho aqui na Europa?
Uma das coisas que mais me inspira aqui é observar outras diásporas vivendo na Europa. Aqui nessa encruzilhada no mundo eu tive a oportunidade muito preciosa de conhecer pessoas do Chile, Irã, Vietnã, Peru, Equador, Uruguai, Argélia, Guadalupe, Martinica, China, México, Mongólia e muitos outros países. E eu escutei suas diversas histórias de migração e como nos microcosmos das famílias que migraram juntas os elementos culturais dos seus lugares de origem são passados (ou não) de geração em geração. Como essas famílias se inscrevem em comunidades que resistem ou aderem à imposta eurocentrização de seus costumes, crenças, formas de se expressar. Essa linha tesa que não quer arrebentar entre o que eles chamam de integração cultural e uma recusa a se auto-apagar completamente.
Tem uma coisa que eu acho tão bonita sobre uma pessoa resistindo em não deixar sua cultura ancestral ser apagada. Em manter vivas crenças que a racionalização extrema do ocidente nunca vai entender. Em compartilhar uma língua como uma arma contra a xenofobia. Em ter um senso de humor específico que conecta o lugar de onde você veio com a forma que você ri - isso não é maravilhoso?
Eu não vim pra Europa com a minha família, eu não sei ainda em que medida eu faço parte da diáspora brasileira aqui. Eu conheci no ano passado um grupo de mulheres amazônidas vivendo em Genebra. A maioria delas têm entre 40 ou 50 anos, eu me vi ali no meio das suas histórias e das suas tão diferentes realidades e eu aprendi tanto sobre as infinitas formas com que alguém pode se mudar do seu lugar de origem. Eu sei que muitas pessoas não escolheram isso, e enquanto eu escrevo aqui eu penso nas minhas amigas trans exiladas na Europa por conta da violência contra pessoas trans no Brasil - nós somos infelizmente o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo todo. Enquanto eu escrevo sobre isso aqui, eu penso nos movimentos diaspóricos dentro da Europa e o quanto isso pode ser similar com pessoas vindo de todas as regiões do Brasil pra construir São Paulo, e como internamente a gente tem que lidar com tanta xenofobia. Como os portugueses e italianos que construíram a Suíça, por exemplo.
Quando eu penso em pessoas que não queriam se mudar e tiveram que fazer isso por pressão, eu penso no absurdo do contínuo genocídio em Gaza. E como deixar isso continuar é afirmar que nós autorizamos as políticas de imigração serem ainda piores, que desrespeitamos a humanidade em todos os sentidos, que nós não atribuímos nenhum valor à vida nessa sociedade doente onde vivemos. Como vamos contar essa história pras futuras gerações? Manter a resistência do povo palestivo viva é algo que deveria ser inescapável em nossos tempos.
Uma mensageira deve ser antes e mais que tudo uma receptora, uma amiga me disse. E eu concordei. Eu gostaria de ouvir ainda mais histórias sobre todos os diferentes processos de migração e suas diferentes realidades, pra que eu então eu possa, através desse processo de escuta, encontrar uma forma de contar para os meus o que é a história da minha migração e o que esses deslocamentos têm feito comigo. Encontrar uma forma de conectar com pessoas que eu nem sei que compartilham as mesmas dificuldades e as mesmas belezas desses movimentos migratórios. E tentar responder a constante pergunta no meu coração: quem eu estou me tornando ao cruzar tantas realidades?
Quando eu estou aqui, desse lado do oceano, tu vai sempre me ver falando sobre o Brasil. Compartilhando a nossa música. Nossos imaginários, comidas, piadas, nossos memes. Se eu confiar um pouco em ti, eu posso às vezes compartilhar um pouco sobre nossas crenças. Uma pessoa poderia dizer que eu estou dando visibilidade para esses tópicos. Mas visibilidade não é o suficiente. Visibilidade sem ética é apropriação. Visibilidade sem partilha é predatório. Então na medida em que eu for avançando na minha prática artística, eu espero que eu possa criar mais e mais espaço para meus pares estarem comigo. Eu espero que eu possa incluir mais e mais outras pessoas migrantes no meu trabalho. Eu espero que meu trabalho possa falar e tocar outras pessoas como eu. Que ele possa sensibilizar pessoas de outras realidades, também. Eu espero que meu trabalho possa nos levar de volta pra casa.
Voltar pra casa é preciso, ao menos uma casa simbólica, e voltar pra casa é tão difícil.
Então para além das dificuldades de encontrar pertencimento num corpo fragmentado pelo deslocamento, para além da terrível constatação que muitos nem tem uma casa pra onde voltar: eu olho pras ruas da minha cidade, quando estou lá, eu olho pro rio me perguntando o que está no seu fundo e que eu não posso ver, eu tento absorver a umidade do ar, eu olho pra floresta e eu tento escutar os mistérios que ela não para de sussurrar. E eu me vejo crescendo, aprendendo e apenas sendo num canto, perto de um canal, numa praça. Num barco, em um cavalo, embaixo de uma mangueira. Eu vejo que IA nenhuma nunca vai conseguir reproduzir: o encantamento da terra em que eu fui presenteada por ter nascido.
Com o meu corpo ainda quente do suor úmido dos trópicos amazônicos, da proximidade da linha do equador, banhado em água doce doce tão doce do rio Guamá, mas também salobra do rio-mar de Algodoal, no meu sangue correndo açaí, tucupi, no meu ventre e nos meus braços a massa que se forma em um corpo que come farinha de mandioca, banhada de ervas, lavada em lágrimas do luto dos que já foram, da falta que fazem os abraços diários, do gosto da cerveja e da rua, eu venho lhes contar que:
A alegria é uma força com a qual enfrentamos muitas batalhas.
2,6 milhões de pessoas foram às ruas em outubro em nome da fé.
A festa é incontornável, no palácio dos bares um enorme rubi fez tanto barulho que quase nos ensurdeceu.
No meio de um igarapé você encontra numa brecha entre as árvores o mais lindo holofote.
A maré trouxe aos nossos olhos uma água viva em todos os tons de rosa e lilás.
Um corpo suporta mais de 10 mil abraços.
É possível segurar um coração de cera no meio de uma multidão e ele não quebrar. O que não é possível é sair ileso da Amazônia, intocado. E se um dia lhes for permitido tocar essas terras e essas águas e esse for o caso de vocês: derretam o seu coração e acendam uma vela.
FR:
Je regarde les paysages comme je regarde le visage des gens que j’aime
Le soleil se lève, traçant le contour d’une montagne. Autour, autant de cascades que de rochers, de petites créatures, de créatures invisibles. On peut entendre couler l’eau, peut-être quelques murmures dans le vent. La lumière du soleil est chaude, le vent frais. On se sent bien. Le soleil se déverse sur tout ce que l’on voit et peu à peu d’autres silhouettes se dessinent à l’horizon. D’énormes nuages, porteurs de messages secrets. Une plaine de jeu pour les enfants de tous âges - un ciel de jeu. Porté·e·s par l’un de ces nuages, enveloppé·e·s de leur douceur rosée, tout à coup, on peut voir le soleil de près.
Et tout à coup, il se met aussi à pleuvoir, alors on n’a plus à choisir entre les deux. On ne sait pas comment choisir entre les deux. Soleil intense pluie intense. En bas, la rivière sinueuse teinte la forêt de sa couleur mordorée, comme un serpent sans camouflage parmi les arbres.
Le paysage me fait un clin d’œil, comme pour dire, tu sais, n’est-ce pas ? Tu le savais déjà. Tu l’as toujours su. Et c’est un secret entre elle – la route – et moi.
Je pleurais autant devant un champ de lucioles dans l'État de Rio, à la frontière avec le Minas Gerais, que devant les aurores boréales.
Mais sur la route, dans l’État de Pará,
Je souris
Aujourd’hui, la personne que je suis et l’art que je produis sont définis par ce mouvement d’accordéon perpétuel avec l’endroit d’où je viens et vers lequel je retourne toujours, comme un pendule de certitude. Je n’ai jamais rompu avec mon lieu d’origine. Une ville, une métropole au cœur de l’Amazonie : Belém do Pará. Une déferlante. Un lieu qui reste pour moi une source inépuisable de symboles, de récits, de codes, de culture, de sons, de musique et de langues. Depuis que je l’ai quitté, j’ai fait l’expérience de quelque chose que j’identifie aujourd’hui comme étant commun à beaucoup de personnes émigrées : je suis vraiment devenue de là-bas. Mon art suit dès lors le même mouvement – il parle de ce lieu et emporte ses symboles partout où je vais.
J’appelle cela une pratique artistique trans-situ : contrairement à l’hyper-localisée in-situ, elle s’intéresse à transposer, transcrire et traduire ces codes dans d’autres contextes.
Mais avec quelle éthique? Comment puis-je opérer ce déplacement sans verser dans l’auto-exotisation? Sans exhiber une forme stéréotypée de ma culture face à un public de gringos ? Et en même temps créer une communication avec mon public ? Comment parvenir à ne pas m’approprier d’autres expériences mais plutôt à les traduire avec authenticité, selon mes propres perceptions d’une culture dont je suis à la fois une locale et une étrangère ? Ce sont là des questions qui imprègnent ma création, et autant de paramètres qui exigent que l’éthique et l’esthétique de ce que je produis soient complémentaires.
Je me questionne sans arrêt: est-ce quelque chose que je ferais au Brésil ?
Est-ce que je montrerais ça dans mon pays?
Rentrer est si difficile – et en même temps, quel soulagement. Je rentre et chacun·e se trouve à un autre endroit, transformé·e par son contexte de vie. Je rentre et je ressens pleinement le besoin de comprendre l’évolution de la scène artistique, celle de mes ami·es, celle de mes proches qui vieillissent. Je rentre, et j’ai besoin de temps. Le temps d’opérer la traversée entre ces contextes si radicalement différents – peut-on imaginer fossé culturel plus grand qu’entre la Suisse et l’Amazonie brésilienne ? Le temps de comprendre, une fois encore, que quand je suis de retour, je n’ai à la fois plus ma place et pleinement ma place ici.
Je suis à la croisée des chemins. Récemment, j’ai fini par comprendre que le rôle de celleux qui ne sont pas enraciné·es dans leur lieu d’origine est d’être des messager·ères. Ce n’est ni meilleur, ni pire: j’admire énormément les personnes qui font de leur lieu de vie un point d’ancrage, qui sont des références, qui incarnent le prolongement et la subsistance de leurs cultures locales. Mon chemin à moi est autre : il est d’être une messagère.
Depuis cette prise de conscience, je me pose sans cesse la question de ce que je vais ramener là-bas de mes contextes de vie et des expériences que je partage ici, en Europe.
L’une des choses qui m’inspire le plus est d’observer les autres diasporas vivant en Europe. Ici, à ce carrefour du monde, j’ai eu la chance de rencontrer des personnes venant du Chili, d’Iran, du Vietnam, du Pérou, d’Équateur, d’Algérie, de Guadeloupe, de Martinique, de Chine, du Mexique, de Roumanie, de Mongolie et de bien d’autres pays. J’ai écouté leurs multiples récits de migrations et comment, dans les microcosmes des familles ayant émigré ensemble, les éléments culturels de leur lieux d’origine sont transmis, ou pas, de génération en génération. Comment ces familles font partie de communautés qui résistent ou adhèrent à l’eurocentrisme imposé de leurs coutumes, croyances et manières de s’exprimer. La ligne ténue – mais indestructible – entre ce qu’on appelle l’intégration culturelle et le refus de s’effacer complètement.
Il y a quelque chose de tellement beau dans la résistance qu’une personne oppose pour ne pas voir sa culture ancestrale effacée. Pour sauvegarder des croyances que la rationalisation extrême de la pensée occidentale ne saisira jamais. Pour parler une langue commune qui soit une arme contre la xénophobie. Pour avoir un humour spécifique qui relie le lieu d’où l’on vient à la manière dont on rit… Je trouve cela incroyable.
Je ne suis pas arrivée en Europe avec ma famille. Je ne sais pas encore dans quelle mesure j’appartiens à une diaspora brésilienne ici. L’année dernière, j’ai rencontré un groupe de femmes issues de l’Amazonie brésilienne vivant à Genève, âgées de 40-50 ans pour la plupart. Là, parmi elles, au milieu de tant d’histoires et de réalités différentes, j’ai appris énormément sur les mille et une façons dont on peut quitter son lieu d’origine. Je sais que pour certaines personnes, ce n’est pas un choix – je pense à mes amies trans qui sont exaltées de vivre en Europe à cause de la violence dont elles sont victimes au Brésil, pays qui détient honteusement le record mondial de meurtres de personnes trans. En écrivant cela, je pense aussi aux mouvements diasporiques à travers l’Europe et en quoi ils peuvent être comparables aux mouvements des personnes venues de toutes les régions du Brésil pour construire São Paulo – et à toute la xénophobie que cela crée en interne. Comme pour les Portugais·es et les Italien·nes qui ont construit la Suisse, par exemple.
Quand je pense à ces gens qui n’avaient pas l’intention de s’exiler mais doivent le faire sous la pression, ou par nécessité, je pense à l’absurdité du génocide en cours à Gaza. Laisser cette situation perdurer revient à affirmer que nous allons laisser les politiques d’immigration continuer à se détériorer. Que nous n’avons plus aucun respect envers l’humanité dans tous les sens du terme. Que nous n’accordons plus aucune valeur à la vie dans cette société malade où nous vivons. Comment allons-nous raconter cette histoire aux générations à venir ? Maintenir en vie la résistance du peuple palestinien est une nécessité incontournable de notre époque.
Un·e messager·ère est avant tout un·e récepteur·ice, m’a dit un·e ami·e. Je partage cet avis. Je voudrais entendre plus d’histoires encore sur tous les processus migratoires imaginables et leurs réalités propres et, à travers ce processus d’écoute, trouver la manière de transmettre aux miens l’histoire de ma propre migration et les effets que tous ces déplacements ont eus sur moi. Trouver le moyen d'entrer en contact avec des inconnu·es et de partager l’adversité et la beauté de ces mouvements migratoires. Trouver la réponse à cette question qui me poursuit: à force de traverser tant de réalités, qui suis-je en train de devenir?
Quand je suis ici, de ce côté de l’océan, vous m’entendrez toujours parler du Brésil. Partager notre musique. Nos images, notre cuisine, notre humour, nos mèmes. Si je vous fais un minimum confiance, je vous ferai peut-être part de certaines de nos croyances. On dira que je donne une certaine visibilité à ces sujets. Mais une visibilité, ce n’est pas assez. La visibilité sans l’éthique, c’est de l’appropriation. La visibilité sans le partage, c’est de la prédation. Alors, en avançant dans ma pratique artistique, j’ai l’espoir de pouvoir faire de plus en plus de place à mes partenaires pour que l’on crée ensemble. L’espoir d’inclure de plus en plus d’autres personnes issues de la migration dans mon travail. L’espoir que ce travail pourra raconter et toucher des personnes comme moi, et sensibiliser celles qui vivent d’autres réalités. L’espoir, également, que ce travail nous permettra à toustes de rentrer chez nous.
Nous avons besoin de rentrer chez nous, ne fut-ce que symboliquement, et c’est une véritable épreuve.
Alors, au-delà des difficultés à faire appartenance dans un corps fragmenté par le déplacement, au-delà de la prise de conscience terrible que nombre d’entre nous n’avons plus de lieu où retourner : je regarde les rues de ma ville, quand je suis là-bas, je regarde la rivière en me demandant ce qu’il y a à l’intérieur et que je ne peux pas voir, j’essaie d’absorber l’humidité de l’air, je regarde la forêt et j’essaie d’entendre les mystères de ses murmures continus. Et je me vois apprendre, grandir ou simplement me tenir quelque part, près d’un canal, sur un square. Dans un bateau, sur un cheval, sous un manguier. Je vois ce qu’aucune IA ne pourra jamais reproduire : l’enchantement de cette terre où j’ai eu la chance de naître.
Alors, le corps encore chaud de la sueur humide des tropiques amazoniennes et de la proximité de l’équateur, baigné dans les eaux à la fois douces du rio Guamá et saumâtres de l’île d’Algodoal, au sang charriant açai et tucupi, aux bras et au ventre épaissis par la consommation de farine de manioc, ce corps rincé d’herbes aromatiques, trempé des larmes du deuil des disparu·es et du manque quotidien de l’affection de mes proches, la langue chargée du goût de la bière et de celui de la rue, je suis venue vous dire, en provenance de l’autre rive, que :
La joie est une force avec laquelle nous affrontons toute bataille.
En octobre, 2,6 millions de personnes sont descendues dans la rue au nom de la foi.
La fête est inéluctable, dans le château des bars, un immense rubis a fait tellement de bruit qu'il nous a presque assourdi·es.
Au milieu d’un plan d’eau, au cœur de la forêt, vous trouverez, à travers les arbres, dans une trouée de feuilles, la plus belle des lumières.
La marée a ramené, jusque sous nos yeux, une méduse faite de toutes nuances de rose et de violet.
Un corps peut soutenir plus de dix mille étreintes.
Vous pouvez tenir un cœur de cire au milieu d’une foule sans qu’il ne se brise. Ce qui est impossible, en revanche, c’est de laisser l’Amazonie intacte, préservée. Si un jour vous avez la chance de toucher ces terres, ces eaux, et que c’est le cas pour vous : laissez fondre votre cœur et allumez une bougie.
Traduction: Laurence Mons.


